Niels Bohr

         O polido senhor, já idoso, ergueu-se de seu lugar, tirou o chapéu e fez um profundo cumprimento. A senhora, esposa de um físico norte-americano, mencionara que seu marido estava estudando no Instituto de Física Teórica da Universidade de Copenhagen. A cena passou-se num bonde, e o cumprimento não era nem para a senhora nem para o seu esposo, mas para o grande cientista da Dinamarca. Dizem que os dinamarqueses são orgulhosos ao máximo de sua indústria naval, de seus lacticínios, de Hans Christian Andersen e de Niels Bohr.

        Niels Bohr nasceu a 7 de outubro de 1885, filho de Ellen Adler e de Christian Bohr, professor de Fisiologia na Universidade de Copenhagen. Viu a luz do dia na casa da avó materna,o Palácio Rei Georg, que ainda se considera a mais bela r

esidência em Copenhagen. Niels, estudante de grande brilho, cursou a Universidade de Copenhagen. Aos vinte e dois anos recebeu a medalha de ouro da Sociedade Científica Dinamarquesa por seus estudos originais sobre tensão superficial. Ele e seu irmão Harold, que se tornaria eminente matemático, já eram conhecidos nos países escandinavos como soberbos jogadores de futebol, membros do time "Dinamarqueses Todos".

        Bohr completou o doutorado em Filosofia em 1911 e partiu para o laboratório Cavendish em Cambridge, Inglaterra, a fim de estudar com o pai do elétron, o grande J. J. Thomson. Lá trabalhou com Sir Ernest Rutherford, de quem se tornou amigo íntimo, a ponto de dar a seu filho o nome de Ernest, que pronunciava exatamente como o fazia Rutherford, e não à maneira dinamarquesa, isto é, Ernst.

        Em 1913 Niels Bohr publicou sua teoria básica sobre a estrutura do átomo, que tem sido ampliada e modificada, sem que se possa esquecer que o modelo original permitiu melhor compreensão da Química e da Eletricidade e, afinal, conduziu ao desenvolvimento da energia atômica.

        Aceita-se que o átomo seja a mínima partícula de matéria que se pode identificar como material distinto. Pode haver átomos de cobre, por exemplo, ou de neônio ou urânio, ou qualquer outro elemento. Teoricamente essas substâncias podem ser divididas em pedaços cada vez menores, mas por menores que sejam as partículas a que cheguemos - até o próprio átomo - elas podem ser reconhecidas ainda como cobre, ou neônio ou urânio ou qualquer outro elemento que seja. Divida-se, porém, o átomo, e a substância já não é mais o mesmo elemento, porém algo diferente.

        O átomo é formado de duas partes principais. Uma porção central chamada núcleo, e partículas externas, que giram em torno dele, os elétrons. Na concepção atômica de Bohr, o núcleo fica no centro e os elétrons giram em órbitas circulares, assemelhando-se o todo ao sistema solar no qual os planetas se movem em torno do Sol que fica no centro.

        O átomo é incrivelmente pequeno. Quinhentos milhões de átomos de tamanho médio não encheriam uma linha desta página. Mesmo tão pequenino, a maior parte do átomo é espaço vazio. O diâmetro do núcleo atômico é cêrca de cem mil vêzes menor que o do átomo todo. Os eléctrons giram tão depressa que parecem tomar todo o espaço.

        Os elétrons, que são muito, muito menores que o núcleo, não giram ao acaso, mas mantêm-se em órbitas determinadas. Estas mudam de posição um pouco, a cada revolução, e por isso o eléctron, girando, não forma um anel, mas uma "casca" (ou camada, ou cápsula).

        O mais simples dos átomos é o de hidrogênio. Seu núcleo consiste num próton. Este contém uma carga elétrica igual porém oposta à do elétron, e pesa quase duas mil vêzes mais que o elétron. Girando em torno do núcleo de hidrogênio, existe normalmente um único eléctron.

        O átomo que vem a seguir é o do hélio, o conhecido gás leve e não explosivo, cujo núcleo consiste em dois prótons e dois nêutrons. Esse elemento tem em sua órbita atômica dois eléctrons. O urânio, o elemento que abala a terra (como componente da bomba atômica), tem 92 elementos que giram em torno do núcleo, distribuindo-se os elétrons por sete órbitas bem separadas. Em todo elemento o núcleo consiste de diferentes números de prótons e nêutrons, e os eléctrons giram em torno, em camadas.

        Sabe-se que a descarga elétrica através de um gás provoca brilho. Quando a eletricidade passa através do gás neônio podemos ver uma, bonita luz alaranjada. Cada elemento tem uma espécie de impressão digital, ou melhor, luminosa, e os cientistas podem identificar a composição de um material pela análise da luz que aparece quando nele se produz um arco elétrico.

        Bohr usou seu modêlo atômico e a teoria quântica de Planck para explicar esse fato e prever a cor e a natureza da luz que seria produzida por diferentes substâncias. Apresentou a idéia de que os eléctrons giram em torno do núcleo em órbitas determinadas, mas quando a eletricidade passa através do átomo, o eléctron pula para a órbita maior e seguinte, voltando depois a sua órbita usual. Quando os eléctrons saltam de uma órbita a outra produz-se luz. Bohr conseguiu prever os comprimentos de onda a partir da constituição do átomo e do salto dos eléctrons de uma órbita a outra.

        Como muitas outras inovações científicas, o átomo de Bohr só foi plenamente apreciado por pequeno número de pessoas. Levou nove anos para que a comissão do prêmio Nobel se desse conta da importante obra de Bohr, que só o recebeu em 1922. Apesar da demora, o físico dinamarquês, então com 37 anos, era o mais novo dos vencedores do prêmio Nobel de Física até aquele tempo. Antes mesmo, porém, do prêmio Nobel, o reconhecimento já se fizera sentir pela entrega a Bohr da chefia do Instituto de Física Teórica de Copenhagen.

        Não tardou que estudantes e cientistas de todo o mundo procurassem a pequenina Dinamarca para estudar e trabalhar. Eram atraidos pelo brilho de Bohr. Dele disse Albert Einstein: "Ninguém sabe como estaria o nosso conhecimento do átomo sem ele. Pessoalmente, Bohr é um dos mais agradáveis colegas que já encontrei. Ele emite suas opiniões como alguém que esteja perpetuamente tateando, jamais como alguém que creia estar na posse da verdade definitiva."

        Em janeiro de 1939 Lise Meitner, refugiada austríaca judia que fugira ao furor nazista , e seu sobrinho Otto Frisch estavam trabalhando no Instituto de Niels Bohr. Leram descobertas de físicos alemães e delas concluíram que seria possível dividir o núcleo do urânio em duas partes iguais, mais ou menos. Quando se desse a quebra do núcleo, ou fissão, haveria súbita libertação de enorme quantidade de energia atômica, o que teria importantes conseqüências militares. Bohr foi aos Estados Unidos e encontrou-se com Einstein e outros cientistas. Discutiu o problema também com Enrico Fermi, que estava trabalhando na Columbia University, em Nova York. Em pouco os laboratórios mundiais confirmavam a sábia previsão de Meitner e Frisch, e o resto é a conhecida história da bomba atômica.

        Bohr voltou à Dinamarca e continuou trabalhando no Instituto. Em abril de 1940 a Alemanha atacou e dominou seu pais em questão de horas. Durante quatro anos os nazistas permitiram que os dinamarqueses dirigissem o seu próprio país. Esperavam vencer o povo dinamarquês por meio de uma atitude cooperativa, mas assim não aconteceu. Os invasores defrontaram-se com sabotagem e greves. Em setembro de 1944 os alemães prenderam o rei da Dinamarca e desarmaram-lhe o exército. E quando tentaram matar os 6 000 judeus dinamarqueses, verificaram que 5 000 dêles haviam sido secretamente enviados por mar à Suécia, feito dos mais heróicos do povo dinamarquês.

        Niels Bohr, filho de mãe judia, e sua espôsa trataram de escapar também aos nazistas. Foram para a Suécia, a bordo do Sea Star, pequeno navio de pesca. Dizem que os nazistas vasculharam-lhe a casa, mas não encontraram a medalha de ouro do prêmio Nobel. Fôra dissolvida numa garrafa de ácido, depois recuperada, sendo a medalha novamente fundida, quando acabou a guerra.

        Da Suécia, Bohr foi para os Estados Unidos e para o projeto atômico de Los Alamos, onde encontrou seu filho Aage, físico.

        Terminada a guerra, Bohr voltou à Dinamarca e a seu amado instituto em Copenhagen. Seus interesses sempre foram ciência e paz. Assim que a bomba atômica se revelou eficiente e devastadora, Bohr pediu imediato controle internacional, sem êxito, porém. Como presidente da Comissão de Energia Atômica da Dinamarca, no ano de 1955 em Genebra, Niels Bohr recebeu o Prêmio Ford "Atomos para a Paz", no valor de 75 000 dólares. Bohr recebeu mais prêmios e láureas do que qualquer outro cientista vivo, e talvez mais do que qualquer cientista em toda a História.

        Bohr sempre teve senso de humor. Discutindo uma teoria relativa à Física das partículas, certa vez disse: "Todos acreditamos que essa teoria é maluca. Resta saber se é suficientemente maluca para ter probabilidade de ser correta. Pessoalmente acho que não é suficientemente maluca."

        Bohr era um homem robusto, com jeito de avô e sobrancelhas muito espêssas. Falava mansa e ràpidamente. Atleta tanto quanto cientista, gostava de esquiar, velejar, andar de bicicleta, revelando enorme resistência física. Com cinqüenta e quatro anos venceu uma corrida de esqui em Oslo, Noruega.

        Ao aproximar-se dos oitenta, achava-se velho demais para o trabalho científico criativo, mas dedicava-se a ensinar e trabalhar pela paz. Bohr morreu a 18 de novembro de 1962.

        Também nós, como o velho do bonde, tiramos o chapéu e reverenciamos tão grande gigante que ajudou a mudar o mundo com o seu modêlo atômico, concebido aos 28 anos de idade.

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